Último
texto
Conclusões de Aninha
Cora Coralina
Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.
Cora Coralina (Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 10/04/1985,
é a grande poetisa do Estado de Goiás. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano,
tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A
Rosa". Em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é
publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", já com o
pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino
Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos:
Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de
integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928
muda-se para São Paulo (SP). Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José
Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e
Estórias Mais". Em 1976, é lançado "Meu Livro de Cordel", pela
editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após
ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser
divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o
Brasil.
Sintam a admiração do poeta, manifestada em carta dirigida a Cora em 1983:
"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim,
moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais
diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana,
que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje
não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia
( ...)." Editado pela Universidade Federal de Goiás, em 1983, seu novo livro
"Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha", é muito bem recebido
pela crítica e pelos amantes da poesia. Em 1984, torna-se a primeira mulher a receber o
Prêmio Juca Pato, como intelectual do ano de 1983. Viveu 96 anos, teve seis filhos,
quinze netos e 19 bisnetos, foi doceira e membro efetivo de diversas entidades culturais,
tendo recebido o título de doutora "Honoris Causa" pela Universidade Federal de
Goiás. No dia 10 de abril de 1985, falece em Goiânia. Seu corpo é velado na Igreja do
Rosário, ao lado da Casa Velha da Ponte. "Estórias da Casa Velha da Ponte"
é lançado pela Global Editora. Postumamente, foram lançados os livros infantis "Os
Meninos Verdes", em 1986, e "A Moeda de Ouro que um Pato Comeu",
em 1997, e "O Tesouro da Casa Velha da Ponte", em 1989.
Texto extraído do livro "Vintém de cobre - Meias confissões de Aninha",
Global Editora São Paulo, 2001, pág. 174.
|