Aquele Natal
José
Carlos Oliveira
No dia 24 de dezembro, há dez anos (tinha eu dezoito), preparei-me tranqüilamente para
passar o Natal em solidão. Chegara ao Rio em setembro. Depois do período natural de
dificuldades que todo provinciano atravessa, começara a trabalhar numa revista. E agora
estava ali, na redação, terminando de escrever uma reportagem e pensando nas ruas
festivas, onde multidões faziam compras e em como seria bela a noite para os que tinham
parentes e amigos. O crítico cinematográfico da revista aproximou-se de mim e disse:
"Olha eu sei que você não conhece ninguém no Rio, de modo que quero convidá-lo
para passar a noite no apartamento de uma amiga minha. Ela vai dar uma festa para gente
assim como você."
Tomei nota do endereço e ele disse: "Ao chegar, é só dizer que você é o José
Carlos, que ela já está avisada."
Às nove horas da noite, rumei para lá. Os sonhos mais ardentes me dominavam. A moça
dona da casa era linda e passaríamos a noite dançando colados! Coisas assim; eu ia
andando cheio de esperança. Diante do apartamento, toquei a campainha e então fluíram
segundos de espera ansiosa. Abriu-se a porta: uma jovem linda, de vestido vermelho, surgiu
à minha frente. Atrás dela vi um corredor, e depois uma sala onde outras moças estavam
sentadas, uma das quais conversava com um rapaz. Da vitrola vinha uma canção tristonha.
Que é que o senhor deseja? perguntou a moça.
Eu sou o José Carlos.
Ao ouvir essas palavras, ela me olhou com expressão indefinível: espanto, ou
esquecimento, ou então não ouvira direito, o certo é que ficou olhando fixamente o
provinciano durante um minuto bastante penoso. Finalmente, falou:
José Carlos ainda não chegou. Com licença e bateu a porta na minha cara.
Meia hora depois, outra vez na rua, eu ainda não sabia se devia rir ou chorar. Fui
andando sem rumo, e afinal entrei no Alcazar, sentei, pedi cuba-libre e comecei a encher a
cara.
O capixaba José Carlos Oliveira foi a maior afirmação da crônica
brasileira na década de 60. Trouxe para o gênero uma certa mistura de lirismo e
sarcasmo, em um estilo de máxima agilidade, a serviço de uma sensibilidade especial para
o ridículo e o patético do homem do nosso tempo. De seu livro "A revolução das
bonecas", Editora Sabiá Rio de Janeiro, 1967, pág. 10, extraímos a crônica
acima.
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