Foi assim
Carlos Trigueiro
A doutora Larissa Pontes me virava do
avesso às segundas, quartas e sextas-feiras, sempre no último horário
de consultas. Primeiro ela me olhava como quem não queria nada, mas,
depois suas irresistíveis pupilas no pupilo me obrigavam a dizer e
repisar, “Senhor, nos faça ver as coisas como elas são”. Lá pela
oitava repetição eu surtava ou mergulhava em transe. Finalmente, ao
adotar técnicas de regressão que decolavam de um falso divã e
pousavam num persa legítimo, conseguia me levar sob cantigas, palmas
e sopro de velas à torta de chocolate do meu segundo aniversário. E
então a doutora fazia a festa!
Desenterrou aos poucos e num crescendo, o que era só meu: jogos
pueris, tatibitate, álbum de figurinhas, patinete, tambor, cometas,
livrinhos infantis, arcos e flechas, revólver de plástico, trem
elétrico, quebra-cabeças, histórias em quadrinhos, aero modelos,
dialeto juvenil, revistas pornográficas, masturbações a dar com o
pau. Dominando minha língua adulta, pinçou lembranças, vazou
saudades, purgou angústias. Quando eu não admitia certas posições,
cara a cara no boca a boca, digo bate-boca, temperava minhas queixas
com seus sermões ou me sedava com métodos singulares. E vasculhava
meus sonhos, filmes, canções, desenhos, suspiros e tatuagens. Claro
que tatuagens imaginárias, pois só existiam em sua mente No final
das sessões, esgotado, eu não passava de um zumbi. A última sensação
que me envolvia era sempre a fragrância do seu Chanel No 5, frescor
ainda exuberante na minha memória química.
Um dia a festa acabou. Visivelmente enfastiada, a doutora mudou sua
atitude, impostou a voz e disse que reavaliara o meu caso. Em
seguida, rabiscou anotações, remexeu gavetas, iniciou o computador,
consultou dados, pediu licença, deu um longo telefonema, disse ao
interlocutor o que devia e o que eu não queria. Foi isso. E fim de
papo. Desligou o celular em câmara lenta, voltou-se, olhou redondo
através das lentes de contato e me enquadrou.
“Otávio, você está de casamento marcado com Débora, minha irmã.
Ela não soube, não sabe, nem nunca saberá de minha fonte que você
frequentou meu consultório. Acontece que futuramente será inevitável
nos encontrarmos em reuniões familiares. E sabe como é conversa em
família, omite-se o que devia ser falado e fala-se o que não devia.”
Sem graça, disse-lhe que apreciava seus métodos, linha de
tratamento, nossos encontros e confrontos. Mas ela não me deu a
mínima chance. Doutoral como nunca, cortou a minha fala e suturou o
resto da conversa.
“Bem, a boa técnica recomenda que não haja ligações ou vínculos
familiares entre analista e analisado. Seremos cunhados. Portanto
devemos parar aqui. Em minhas mãos você cresceu o que era possível
Sua falsa timidez é rara nos manuais da psicanálise e acho que o
próprio Freud gostaria de ter tido você no divã.”
“Sei.”
«Na minha especialidade, que é a psicoterapia catártica profunda,
seus resultados foram ótimos."
“Sei."
“Como ainda há um terreno a percorrer na parte de psicoterapia de
apoio, achei indispensável recomenda-lo a um excelente profissional:
o doutor Guilherme Pessoa. Ele foi meu professor. Além de competente
e estudioso, é educadíssimo e esbanja cultura. Bem, o doutor
Guilherme está aguardando você na próxima quarta-feira, tome aqui o
cartão dele, tem o telefone e número da sala.»
“Mas doutora Larissa..."
“Olhe só, Otávio, tudo o que ocorreu entre nós neste consultório
acaba de morrer aqui, e aqui será enterrado quando eu acabar de
falar. Faz parte da rigorosa ética profissional."
Mas, doutora, eu...”
“Sua confidencialidade vai ajudá-lo na terapia de apoio. Você
aprendeu a administrar suas fraquezas desvendadas pela catarse. Isso
é sinal de força, de domínio. Prometa que continuará o tratamento
conforme sugeri!"
Aturdido, feito menino em idade escolar ouvia mim mesmo:
“Prometo.”
Do alto de sua autoridade profissional, abaixou-se, deu-me um par de
beijos sociais, apertou minha mão de modo burocrático, levou-me à
porta do consultório, abriu-a, fechou-a, e desapareceu sob a burca
doutoral.
”Dá licença...”
E-MAIL: carlostrigueiro@globo.com
SITE:
http://www.carlostrigueiro.com/
|