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Arnaldo Nogueira Jr


Carlos Trigueiro nasceu em Manaus - AM, em 1943. Em 1951 muda-se para Fortaleza - CE -, e, em 1956, para o Rio de Janeiro (RJ). Entre  1980 E 1996 viveu na Espanha, Itália, China e Estados Unidos. Publicou memórias, artigos e ficção no País e no Exterior. Livros: Memórias da Liberdade (1985 e 2008), O Clube dos Feios e outras histórias extraordinárias (1994), O Livro dos Ciúmes (1999), O Livro dos Desmandamentos (2004), Confissões de um anjo da guarda (2008). Textos mais recentes: "At home with  the Colonel" (excerto de O livro dos desmandamentos) na Revista Metamorphoses - NorthAmpton/EUA, e Ilações sobre a criatividade latina e ladina do Jeito" (ensaio) -  Revista Designis nº 14, da Federacion Latina-Americana de Semiótica (Buenos Aires, Argentina).

Texto extraído do livro “Libido aos pedaços”, Editora Record, 2011, pág. 13.


Foi assim

Carlos Trigueiro



A doutora Larissa Pontes me virava do avesso às segundas, quartas e sextas-feiras, sempre no último horário de consultas. Primeiro ela me olhava como quem não queria nada, mas, depois suas irresistíveis pupilas no pupilo me obrigavam a dizer e repisar, “Senhor, nos faça ver as coisas como elas são”. Lá pela oitava repetição eu surtava ou mergulhava em transe. Finalmente, ao adotar técnicas de regressão que decolavam de um falso divã e pousavam num persa legítimo, conseguia me levar sob cantigas, palmas e sopro de velas à torta de chocolate do meu segundo aniversário. E então a doutora fazia a festa!

Desenterrou aos poucos e num crescendo, o que era só meu: jogos pueris, tatibitate, álbum de figurinhas, patinete, tambor, cometas, livrinhos infantis, arcos e flechas, revólver de plástico, trem elétrico, quebra-cabeças, histórias em quadrinhos, aero modelos, dialeto juvenil, revistas pornográficas, masturbações a dar com o pau. Dominando minha língua adulta, pinçou lembranças, vazou saudades, purgou angústias. Quando eu não admitia certas posições, cara a cara no boca a boca, digo bate-boca, temperava minhas queixas com seus sermões ou me sedava com métodos singulares. E vasculhava meus sonhos, filmes, canções, desenhos, suspiros e tatuagens. Claro que tatuagens imaginárias, pois só existiam em sua mente No final das sessões, esgotado, eu não passava de um zumbi. A última sensação que me envolvia era sempre a fragrância do seu Chanel No 5, frescor ainda exuberante na minha memória química.

Um dia a festa acabou. Visivelmente enfastiada, a doutora mudou sua atitude, impostou a voz e disse que reavaliara o meu caso. Em seguida, rabiscou anotações, remexeu gavetas, iniciou o computador, consultou dados, pediu licença, deu um longo telefonema, disse ao interlocutor o que devia e o que eu não queria. Foi isso. E fim de papo. Desligou o celular em câmara lenta, voltou-se, olhou redondo através das lentes de contato e me enquadrou.

“Otávio, você está de casamento marcado com Débora, minha irmã. Ela não soube, não sabe, nem nunca saberá de minha fonte que você frequentou meu consultório. Acontece que futuramente será inevitável nos encontrarmos em reuniões familiares. E sabe como é conversa em família, omite-se o que devia ser falado e fala-se o que não devia.”

Sem graça, disse-lhe que apreciava seus métodos, linha de tratamento, nossos encontros e confrontos. Mas ela não me deu a mínima chance. Doutoral como nunca, cortou a minha fala e suturou o resto da conversa.

“Bem, a boa técnica recomenda que não haja ligações ou vínculos familiares entre analista e analisado. Seremos cunhados. Portanto devemos parar aqui. Em minhas mãos você cresceu o que era possível Sua falsa timidez é rara nos manuais da psicanálise e acho que o próprio Freud gostaria de ter tido você no divã.”

“Sei.”

«Na minha especialidade, que é a psicoterapia catártica profunda, seus resultados foram ótimos."

“Sei."

“Como ainda há um terreno a percorrer na parte de psicoterapia de apoio, achei indispensável recomenda-lo a um excelente profissional: o doutor Guilherme Pessoa. Ele foi meu professor. Além de competente e estudioso, é educadíssimo e esbanja cultura. Bem, o doutor Guilherme está aguardando você na próxima quarta-feira, tome aqui o cartão dele, tem o telefone e número da sala.»

“Mas doutora Larissa..."

“Olhe só, Otávio, tudo o que ocorreu entre nós neste consultório acaba de morrer aqui, e aqui será enterrado quando eu acabar de falar. Faz parte da rigorosa ética profissional."

Mas, doutora, eu...”

“Sua confidencialidade vai ajudá-lo na terapia de apoio. Você aprendeu a administrar suas fraquezas desvendadas pela catarse. Isso é sinal de força, de domínio. Prometa que continuará o tratamento conforme sugeri!"

Aturdido, feito menino em idade escolar ouvia mim mesmo:

“Prometo.”

Do alto de sua autoridade profissional, abaixou-se, deu-me um par de beijos sociais, apertou minha mão de modo burocrático, levou-me à porta do consultório, abriu-a, fechou-a, e desapareceu sob a burca doutoral.

”Dá licença...”


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