O cachorro e os cães
Jádson Barros
Neves
De tarde, sentados no troco de uma castanheira caída, três homens
conversavam na clareira brilhante e silenciosa. Deitado na rede, no
canto mais sombrio da palhoça, Severino contemplava-os em silêncio.
Depois, a velhinha enquadrou-se na porta, um vulto ligeiro e escuro
como um rato, que logo sumiu para outra parte da cabana. Ela
revolveu o borralho e retirou a banana com casca de cima das brasas.
Em seguida, soprou as cinzas, pôs gravetos e lenha e despejou
álcool. A madeira crepitou, o fogo explodiu, e Severino pensou que
fosse incendiar as palhas.
O leite de pinhão-bravo fechara-lhe a ferida, e, mesmo inchada, a
perna esquerda já lhe permitia algum movimento. “Sorte sua não ter
acertado um osso ou o joelho...” ralhava a mulher, enquanto trocava
a atadura. Uma rajada de metralhadora, girada em meia-lua – o cortar
sibilante das balas que desapareceriam na mata –, deixando um homem
morto e cinco em fuga.
Quando a velha saiu, Severino voltou a olhar para fora, mas não viu
mais os três homens. Atrás do acampamento deserto, a floresta
escurecia. Severino fechou os olhos e tentou adormecer. Depois de
algum tempo, a velhinha reapareceu. Ela fazia tudo com desvelo,
causando nele a impressão de sempre deixar desaparecidos seus passos
órfãos e miúdos. Entregou a Severino o mastruço na garrafa e as
ataduras.
Quando a sombra oblíqua das árvores já avançava pela clareira,
apareceu um homem trazendo comida e água, que deixou perto da rede.
Era alto, barbudo, de pele trigueira. Severino vira-o algumas vezes,
comprando nos armazéns de secos e molhados.
– Os últimos partiram hoje. Vamos voltar para a cidade e ficar
quietos por uns tempos. Amanhã cedo, alguns companheiros vêm buscar
você, e você vai para outro acampamento. Levo sua cartucheira e
estou deixando minha carabina e uma caixa de munição.
– Tudo bem – disse Severino, acomodando-se na rede.
– Camuflamos trabucos em toda a área de acesso à clareira.
Protegemos as espoletas com cera de abelha, para não molharem ao
sereno. Quem tocar as linhas de cobre vai levar tiro. Se algum crefo
disparar, saia daqui e desça até o rio. Lá, você encontra uma canoa
com motor, se precisar fugir.
– E Nuta?
– Contam que está preso, mas não sabemos se é verdade... Agora estão
procurando por nós. Acham que você lhes preparou uma cilada. Somente
ontem à tarde enviaram um pelotão para buscar o cadáver do policial.
Hoje, mandamos as mulheres e as crianças para a cidade.– Estendeu a
mão para Severino. – Até amanhã, companheiro. Procure se cuidar.
Quando o homem saiu, Severino ficou ouvindo o ruído cuidadoso das
botinas que se afastavam, como o pisado macio de um animal nas
folhas. Longe, alguém assobiou, e um longo assobio respondeu das
imediações da palhoça. Em seguida, mais dois ou três assobios
repetiram-se, como numa ressonância de espelhos, e então
silenciaram.
A noite subiu pelo retângulo da porta, até escurece-lá, suavizando
as árvores e as barracas ainda cobertas de lona plástica. Nos dias
anteriores, Severino observara uma mulher muito jovem amamentar uma
criança. A cabana dele era coberta com palmas de açaí, e estava
enfiada na floresta, sob árvores enormes, perto da clareira.
Aproveitou a última claridade para atar a rede num local seguro. O
homem tinha-lhe deixado uma lanterna, fumo, palha de cigarro e óleo
de cozinha contra os mosquitos. Severino esticou-se na rede, ouvindo
os últimos piados dos jaós. Depois, encostou a espingarda e a
lanterna ao lado da perna doente, e ficou ouvindo o ruído da própria
respiração, tentando adormecer.
A culpa de tudo era de Nuta, de sua mania de falar às gargalhadas,
abrindo o bigode feito asas e encolhendo as perninhas sobre a
cadeira. Contava qualquer fato como se fosse para todo mundo ouvir.
Na tarde de terça-feira, ele andara bebendo na zona e tinha revelado
que sabia onde os posseiros estavam. Sabia, disse, porque Severino
tinha dito.
Na quarta-feira, depois do jantar, Nuta apareceu na casa de
Severino, acompanhado por um sargento e por dois policiais à
paisana. Foi logo anunciando quem levaria os policiais ao
acampamento: não ele, Nuta, com a mulher acamada pela malária.
Severino explicou que os acampamentos sempre mudavam de lugar. Era
difícil acha-lós. Existia muito boato, isso sim. Mas o sargento foi
falando com calma, dizendo que Severino era o melhor batedor dali,
conhecia cada palmo da selva próxima, era o único que poderia
ajuda-lós. E ainda lhe contou sobre uma recompensa oferecida pelos
fazendeiros.
“Então até amanhã”, disse-lhe o homem. “Mas sua resposta é sim”,
acrescentou em tom peremptório. “Tem de ser sim...”
Na manhã seguinte, apareceram dois policiais. Com eles, um velho
conhecido de Severino, um rapaz de traços midiáticos, que da noite
para o dia surgiu fardado na cidade, pondo ordem nos bordéis. Houve
uma época em que ele e Severino caçavam juntos: faziam varridas para
os bichos andarem na floresta ou armavam cartucheiras nos carreiros
por onde passavam caças. Depois, o rapaz tornou-se policial, e então
os dois se afastaram. Severino possuía um bar, onde também comprava
ouro. Nessa manhã, ele o rapaz se falaram novamente.
“Um dinheirinho a mais não faz mal. Você não acha?” o rapaz
comentou.
“Talvez ajude na época das chuvas, quando fecham os garimpos”. E
Severino sorriu amargo, olhando a serra azulada pela distância.
“Então amanhã cedo, senhor Severino?”
“Sim, podem passar amanhã”.
Nuta apareceu de tarde com outra conversa. Dessa vez conservou o
bigode sossegado e as pernas gambitas quietas, e contou sobre a
bifurcação do caminho.
Severino derretia ouro em pó, inclinado sobre o prato de aço, e
balançou o maçarico aceso perto do rosto de Nuta:
– Você, você, sempre me deixando em apuros... Não se pode falar
nada, que logo espalha para o mundo inteiro.
Esperou que o ouro esfriasse até solidificar. Em seguida, guardou a
pepita junto com outras, num bauzinho de madeira.
– Eu vim contar sobre a bifurcação dos caminhos – defendeu-se Nuta.–
Na selva, o caminho se abre em dois. Pegue a trilha da direita e se
atrase, deixe os polícias seguirem na frente. Quando passarem pela
primeira castanheira, à direita, conte até cem passos, aí corra e se
enfie no mato.
– Por que tudo isso agora, Nuta?
– Porque se você usar a trilha da esquerda vai levar até as crianças
e as mulheres. São dois acampamentos. Num, estão os homens; no
outro, as mulheres com as crianças. Imagine cinco ou seis policiais
com metralhadoras e fuzis invadindo um acampamento onde só há
crianças e mulheres...
– E o que vai acontecer depois?
– Nem me pergunte. Apenas corra e não olhe para trás. Agora está
entendendo por que contei que somente você poderia levar eles até o
acampamento? Eu não daria conta de correr...
Quando Nuta saiu, Severino varreu o bar e escondeu o bauzinho dentro
de uma caixa de sapatos debaixo da cama. Parecia um animal, andando
nas sombras do anoitecer. Era um homem baixo, de pele curtida pelo
sol, cabelo cor de madrugada, e tinha uns olhos de gato que pareciam
enxergar no escuro.
Dormiu um sono breve e agitado.
De manhã, bem cedo, já o esperavam. Eram seis homens. Traziam fuzis,
e um deles carregava uma metralhadora. Severino subiu na carroceria
da camioneta, onde já estavam quatro policiais. Os outros dois iam
dentro da cabine, com o motorista.
Até perto do meio-dia, o veículo rodou velozmente pela estrada de
piçarra. Para trás, ficavam as volutas de poeira vermelha. Os homens
da carroceria viajavam cabisbaixos, procurando proteger-se do vento
e do pó.
À medida que se aproximavam da fazenda, as árvores ficavam maiores.
A certa altura, o veículo saiu da estrada principal e ganhou uma
estradinha semelhante a dois caminhos paralelos. Não demoraram a
chegar à fazenda. O capataz veio recebê-los, e Severino ouviu-o
comentar com um dos policiais algo sobre o desaparecimento de reses.
Almoçaram e, em seguida, continuaram a pé.
“Agora a coisa é com a gente, senhor Severino. A gente e o seu faro
de vira-lata”.
Seguiram ao largo do pasto, que de tão extenso não mostrava a outra
margem. Havia bois brancos pastando. Às vezes, erguiam a cabeça de
dentro do capim e ruminavam os passantes nos olhos úmidos. Severino
caminhava na frente, mantendo a cartucheira com o cano voltado para
baixo. Os policiais contavam lorotas, divertiam-se com prisões de
bêbados e putas. “Temos de deixar o xadrez com algumas cabeças,
senão ficamos sem o que fazer.”
Após uma hora de caminhada, estavam diante da selva. Descansaram um
pouco. Os policiais se detiveram, antes de retomar a marcha, olhando
as árvores seculares, gigantescas, sufocadas por cipós. Ouviram
gritos de animais desconhecidos.
“São apenas macacos guaribas”, disse Severino.
A picada fora aberta recentemente. Agora não se via mais o sol, e a
luz descia filtrada pelas folhas. Mais tarde, chegaram ao local
indicado por Nuta. Severino fingiu indecisão, mas entrou no caminho
da direita. Iniciou, então, seu andar caranguejo: caminhava de lado,
com o rosto voltado para cima, como se procurasse algo nas árvores,
fazendo dois passos avançados terminarem num recuo. Mantinha, assim,
o olhar vigilante e, ao passar pela castanheira, havia feito com que
os policiais se dividissem em duas filas de três homens. Ele andava
entre os dois últimos.
Colocando-se como o último da fila, pulou para dentro da mata.
Correu, sem se voltar, descendo o morro, levando no peito ramagens e
flores silvestres, junto com o ar das quatro da tarde de
sexta-feira. Sentiu o impacto na perna esquerda, ao mesmo tempo em
que ouvia as rajadas da metralhadora, e só depois notou o sangue e
começou a sentir dor. Caiu, mas continuou rolando morro abaixo, até
ser detido por um tronco meio
podre. Pulou para trás dele e ficou deitado, olhando.
Viu os policiais se abaixando, atirando em todas as direções.
Manteve o olhar cravado neles e conseguiu perceber quando, após
rodar a esmo outra rajada, o rapaz da metralhadora foi erguido do
solo por um instante alucinatório, suspenso pela explosão de uma
espingarda, que o jogou com força e morte ao chão.
Os tiros vinham de trás das árvores – de mãos invisíveis, para os
policiais espantados, que só não morreram porque recuaram. Depois de
um demorado silêncio, Severino levantou-se, sacudindo o barro do
corpo. Demorou a ver os vultos silenciosos que saíam da tocaia. Aos
poucos, um homem surgia de uma moita, outro deixava o tronco de uma
árvore ou a proteção de uma pedra.
– Você deve vir com a gente até o acampamento.
– Não sei se consigo andar direito. Acertaram minha perna.
Improvisaram uma maca, com taquaras e cipós. Dois homens o
carregaram por quase meia hora, através de caminhos secretos na mata
cerrada. Depois, saíram da floresta e entraram no acampamento sob as
longas sombras das árvores e pontilhado de barracas. Foi quando
deixaram Severino na palhoça, aos cuidados da velhinha.
Colocou a lanterna entre as pernas, o facho de luz dirigido somente
para a rede, embora fosse um cuidado desnecessário, pois ali ninguém
perceberia claridade alguma. Iluminou a carabina e achou bonita a
coronha cor de acaju. Em seguida, abriu uma folhinha de papel,
espalhou nela o fumo e enrolou o cigarro. Apagou a lanterna e ficou
fumando no escuro. Um mucura entrou na palhoça e comeu o resto de
comida. Severino acompanhou com os ouvidos os movimentos invisíveis
do animal. Depois, fechou os olhos.
À noite, qualquer ruído torna-se imenso na selva. Ali, a floresta
era de vegetação rasteira sob árvores copadas, muito altas, por onde
a luz do dia mal entrava. O solo estava coberto de folhas, e
escutava-se nelas o barulho dos bichos vagando. Às vezes, os
ratos-saruês lançavam seu grito estridente, que repercutia como
agulha que penetrasse a carne. Boa parte do tempo transcorreu assim:
Severino tirava um cochilo, mas logo era despertado pelo ruído de
algum animal nas proximidades.
De madrugada, porém, sentia-se descansado. Trocou a atadura, bebeu
um gole do mastruço e fez outro cigarro. Se entrava um bicho
buscando alimento, ele o iluminava, apenas para ver os olhos
brilhantes sob a luz. Um gato maracajá esteve miando perto da
cabana, em alguma árvore, e depois Severino ouviu também o rugido de
uma onça. Então o silêncio saiu de seu canto e cobriu como uma névoa
toda a redondeza. A onça
rugiu ainda várias vezes, ela estava distante, e Severino não sentia
medo.
Desejou estar na cidade, deitado com alguma puta ou simplesmente
fumando tranquilo, como fazia agora, olhando a cada tragada a ponta
vermelha do cigarro de palha. Também sentia saudade de bebida. Sabia
que tudo que deixara estaria destruído ou fora roubado. A essa
altura, nada mais restaria do bar. Tinha uma boa soma em ouro,
guardada fazia vários anos, para montar um negócio melhor. Apenas a
Nuta, seu compadre, mostrara as pepitas. Teria de recomeçar em algum
acampamento, ou buscar um garimpo clandestino numa fazenda qualquer.
Conhecia o preâmbulo do amanhecer na mata. E aconteceu que o último
saruê se calou em alguma toca, e Severino ouviu depois o canto dos
mutuns. Duas ou três aves escondiam-se em alguma árvore fechada. Era
assim que se protegiam. Às vezes, durante as caçadas, ouvia-as ao
anoitecer ou somente na aurora. Pelo gemido dessas aves e o canto
dos primeiros pássaros, sabia que já estava amanhecendo.
Fumou outro cigarro, movendo-se cuidadosamente na rede. Depois,
ficou vigiando a entrada da cabana. Não o veriam, deitado na rede
armada no outro canto, quase ao lado da parede, pois dentro da
barraca ainda estava bastante escuro. Atiraria em qualquer sombra
que aparecesse ao redor. Longe, na clareira agora acinzentada, havia
um veado mateiro, imóvel. Daquela distância, conseguiria acertá-lo
tranquilamente, pensava.
Os policiais deviam ter dormido por perto. Mas depois do que
acontecera, só iriam procurá-lo à luz do dia. Não tinham instinto, a
não ser se fossem orientados por um bom guia, como ele ou o
compadre. Nuta nascera numa cidade ribeirinha, cercada pela selva.
Conhecia o lugar como poucos. Antes de vir para o garimpo, vivera
como seringueiro. Todo mundo conhecia-lhe a fama de bom guia, mas
também a de bebedor, de forma que poucos se arriscavam a
contratá-lo.
Severino pensava nisso, quando ouviu o disparo seco de um trabuco.
Sentou-se na rede, a carabina na mão esquerda, os olhos mastigando a
porta. Calçou as botinas e preparou-se para descer. Escutou mais um
estampido e, logo em seguida, outro. Ouviu os pisados inconfundíveis
das botas militares quebrando galhos, torcendo as folhas,
afundando-se na terra macia. Saltou da rede, apoiando o peso do
corpo na perna direita. Permaneceu agachado, atento aos mínimos
ruídos, e buscando descobrir de onde vinham os homens.
Enfiou-se entre as palhas, sem barulho, e foi-se arrastando para
trás. Parou apenas quando se achava numa distância segura. Então
descobriu cinco homens cercando a palhoça. Afastou-se um pouco mais,
e os viu atearem fogo às palhas. De onde se abrigava, atrás de um
tronco, podia vê-los bem.
Observava os cinco homens de uniforme verde-oliva que olhavam o fogo
consumir a cabana, quando apareceu entre eles uma figura pequena,
vestida apenas de camisa e calção, que, pelo modo de se mover,
agitar os braços e olhar para o solo, não deixava dúvidas. “Maldito
cavalinho-do-diabo!” teve vontade de gritar. Apoiou o cotovelo no
tronco, segurando a parte inferior da carabina com a mão esquerda
espalmada para cima, a coronha apoiada no ombro, e o olho fazendo
mira, medindo a distância, com o indicador direito no gatilho. Se
ameaçassem descer a ladeira, ele acertaria primeiro em Nuta, seu
compadre. Daquela distância e com arma tão boa, não erraria: disso
tinha certeza.
Com agradecimento especial do autor a
Ronaldo Costa Fernandes e Altair Martins.
E-MAIL:
jadsonbn@yahoo.com.br
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