Desencontros
Kinho Vaz
Recepção do hospital. Dia de visitas. O entra e sai constante de
pessoas dificulta a localização de quem procuro. Resolvo sentar num
sofá e esperar.
Uma moça carregando um bebê senta ao meu lado. Puxa a fala.
Começamos a conversar. Falamos de crianças, corujices de pais. As
pessoas que passam começam a brincar com o bebê da moça. Fazem caras
de encantadas, acham lindo o neném. Mentirosos. Criança quando nasce
só é bonita quando é nossa. A mãe da criança fala alguma coisa que
não consigo captar. Pergunto pelo pai. Responde que foi buscar o
carro, não devia demorar. Perguntei onde moravam. Disse que longe
dali. Achei que ela se envergonhou com a pergunta. Me calei. Ela
tornou a puxar assunto. Precisava ir ao banheiro. Não falei nada,
podia ser mal interpretado. Ela voltou a carga com mais veemência.
Fiz cara de quem não podia ajudar. Disse que estava muito apertada,
que tinha medo de arrebentar os pontos. Continuei fazendo cara de
“sinto muito”. Perguntou se eu não poderia segurar a criança
enquanto ela procurava um banheiro. Me pegou. Fiquei sem saída.
— É só um minutinho. Volto logo. Se ele chorar, sacode que ele pára.
E agora? Tomara que não acorde. Não saberia o que fazer. Sacudir.
Ele disse pra sacudir. Droga. Isso só acontece comigo. Venho visitar
um parente. Sou impedido de entrar por estar de bermudas. Minha
mulher entra, eu fico. Não demora e já estou metido em confusão.
Essa é boa! E esse raio de visita que não acaba. E a mãe dessa
criança? Deve ter uma bexiga enorme. Ou será intestino? Sei lá. Seja
o que for, tomara que seja breve, antes que a criança acorde.
Pronto, acordou! E agora? Sacode. Ela disse pra sacudir. Cala a
boca, já estou sacudindo, não está sentindo? Começou a berrar mais
forte. Comecei a saltitar no mesmo lugar. As pessoas me olhavam meio
enviesadas. Deviam pensar que eu era louco. E não sou? Só um louco
estaria numa situação dessas.
Uma mulher parou. Perguntou se a criança estava doente. Eu disse que
não, que ela era novinha em folha. Ela se irritou. Disse que estava
vendo que a criança era novinha, queria saber se tinha algum
problema. Eu disse que não sabia, mas que não devia ter. Ela
preferiu ficar calada e foi embora, me olhando com desconfiança.
A visita já deve estar terminando. E a mãe dessa criança? E a minha
mulher? O que eu faço? E se a minha mulher chegar primeiro que a mãe
da criança?
— Cala a boquinha, cala.
Uma jovem parou diante de nós.
— Esta criança está com fome, tem que dar de mamar pra ela.
Perguntei se ela não podia me ajudar a fazer isso. Mandou eu pedir
ajuda pra minha mãe. Mas eu só pedi ajuda.
Um guarda me viu de longe e veio de mansinho na minha direção. Deve
ter achado aquela movimentação estranha. E não era?
— O senhor está esperando alguém?
— A mãe da criança.
— A sua esposa?
— Também.
— Onde ela está?
— A mãe da criança ou a minha esposa?
— A mãe da criança não é a sua esposa?
— Não.
— Como pode?
— Cala a boca, filhinho, cala.
— Se não é seu filho, por que chamá-lo assim?
— Assim como?
— Filhinho.
— É só força de expressão.
— Isso está me cheirando mal.
— Será que fez cocô?
— Não falo disso, mas da sua situação.
— Eu sei, seu guarda, mas o que fazer?
— Bem: temos aqui uma criança que não é seu filho; o senhor diz está
esperando a mãe dela, que não é a sua esposa; e também está
esperando a sua esposa, que não é a mãe da criança. Vejamos: ou o
senhor não quer assumir a paternidade, ou roubou esse neném e está
tentando se desvencilhar do objeto do crime.
— Isso é um absurdo. O senhor faz deduções baseadas em nada.
— Nada disso. Minhas deduções são lógicas. O embaraçado aqui é o
senhor, com essa criança no colo.
— Eu sei, mas não tenho idéia do que fazer com ela.
— Como não sabe? Ninguém segura uma criança que não é sua à-toa.
Ainda mais na porta de saída de um hospital.
— Eu sei, seu guarda. Mas não é nada disso que o senhor está
pensando. Deixe-me explicar...
— Deixo sim, mas lá na delegacia.
— Delegacia? Não posso, eu não fiz nada.
— Conheço bem o seu tipo, todos dizem a mesma coisa.
— É tudo um grande mal entendido, seu guarda. Posso explicar tudinho
agora mesmo. Olhe ali.
Lá vem a minha esposa. Ela pode confirmar para o senhor.
— Oi, meu bem...
— O que está havendo aqui?
— Autoridade aqui sou eu. Deixa que eu falo: a senhora conhece esse
homem?
— É o meu marido.
— Então a senhora é a mãe da criança.
— Não, não sei que criança é esta?
— As coisas estão ficando complicadas pra você, meu caro.
— Querida, essa criança é de uma moça que eu conheci...
— Seu safado! Fazendo seus conhecimentos fora do casamento.
— Calma! Eu acabei de conhecer e ela já tinha a criança.
— Cadê essa vadia?
— Não sei, querida. Quer dizer, ela foi ao banheiro e pediu pra eu
segurar...
— O quê?
— A criança, meu bem.
Um homem se aproximou da confusão, reconheceu a criança e veio falar
com o guarda:
— O que está acontecendo aqui? O que esse cara tá fazendo com o meu
filho no colo?
— Ta vendo, seu guarda. Olha aí o pai da criança.
— Cadê a minha mulher, seu guarda? O que está acontecendo aqui?
— Isso é o que eu estou tentando descobrir. Até agora esse senhor
não conseguiu explicar o que está fazendo com essa criança no colo.
Ele diz que não é o pai, mas que está esperando a mãe.
— O que você quer com a minha mulher, meu chapa?
— Nada, amigo. Ela é que pediu para eu segurar essa criança, o seu
filho, enquanto procurava um banheiro. Por falar nisso, toma que o
filho é teu! Pronto! Ta tudo resolvido. Posso ir, seu guarda?
— Nãnaninanão. Falta a peça chave para o desfecho dessa trama: a mãe
da criança!
— Mas eu já disse que ela foi ao banheiro e já vem.
— Então esperamos, todos!
— Mas, se o pai já apareceu, se já está tudo esclarecido, esperar a
mãe pra quê?
— Pra dizer quem é o pai de verdade.
— Calma aí, seu guarda. Tá duvidando da honestidade da minha mulher?
— Neste momento estou duvidando de tudo e de todos. Isso aqui está
me cheirando muito mal.
— Agora ele fez cocô mesmo!
— Tem que limpar, me ajuda?
— Limpa você que é o pai.
— Não sei fazer isso.
— Mas soube fazer a criança.
— Isso não é problema seu.
— Isso eu sei. Só o guarda aqui não parece acreditar.
E não acreditou. Mesmo depois que a mãe da criança apareceu,
esclareceu tudo e me pediu desculpas, o guarda continuou insistindo
que todos fossemos para a delegacia. Só mudou de idéia porque um
servente do hospital gritou o seu nome, avisando que o jogo do
Flamengo já ia começar. Aí ele coçou a cabeça e mandou um
“vai-vai-vai...”.
Eu fui rapidinho. E nunca mais fui de bermudas a um hospital.
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