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Arnaldo Nogueira Jr


Maria Luiza Rovaris Cidade (1988) mora em Florianópolis (SC). Diz que escreve para desabafar certas coisas que oralmente não consegue expressar. Prepara-se para o vestibular de Jornalismo.


Desabafo

Maria Luiza Rovaris Cidade


Jantar em um restaurante meia boca em algum lugar perto do centro da cidade. Ele, um cinqüentão lento, gordo e advogado sem grandes ambições, sentado de frente para ela, degustando o camarão ao alho que ela tanto detesta. Ela, dona-de-casa cheia de ambições, todas frustradas, sentada de frente para o ser que tem lhe proporcionado intensos momentos de reflexão que cessaram ao mesmo tempo que a atenção dele se desviou do camarão. Olham-se por uns instantes que passaram despercebidos por ele e intermináveis para ela. Ele começa:

— Querida, eu...

— Não, Alberto. Eu falo primeiro.

— Mas...

— Nada de “mas”, Alberto. Já está mais do que na hora de discutirmos nossa relação, nosso casamento. Nossos filhos já estão encaminhados na vida e está na hora de nós finalmente tentarmos encontrar nossa felicidade. Não sou feliz. Nunca fui. Você e seus camarões. Você e seus processos infindáveis. Você e seu cheiro de suor que beira o insuportável. Você e seu futebol aos domingos, pela televisão, é claro, já que você nunca se importou com sua própria saúde. Você e suas músicas clássicas. Você e suas risadas das Vídeo Cacetadas. Cansei, Alberto. Cansei de você.

Ele, atônito, olha para ela. Ela continua:

— Nunca quis me casar com você. Estudamos juntos, fomos namoradinhos nos tempos de colegial, mas jurei pra mim mesma que isso nunca iria adiante. E foi. Minha mãe pode até se remexer no túmulo, mas eu nunca a perdoei por isso. Por fazer minha cabeça, por me influenciar a casar com você. Nunca gostei de seus modos, dos seus amigos e até do seu trabalho. Você nunca quis crescer na vida, nem sei se tem capacidade para tanto.

Ele estava roxo. Ela acrescenta:

— Eu te odeio. E odeio essa nossa vida, essa minha vida.

Ele, cor-de-abóbora:

— Você quer divórcio?

Ela, estupefata:

— Divórcio? A essas alturas dos acontecimentos? Claro que não! O que minhas amigas iriam pensar? O que todos iriam pensar? Prefiro aceitar minha condição de esposa frustrada em todos os sentidos. Até o sexo era péssimo. Por que você não arranjou uma amante, hein? Seria tão mais fácil. Eu faria um escândalo básico e nos separávamos. Mas, não. Você sempre era cem por cento correto em tudo, Sr. Sabichão. Eu te desprezo.

Ele, com olheiras, afrouxou o nó na gravata. Ela, cheia de si, pergunta:

— O que você queria mesmo?

— Quando?

— Antes desse meu desabafo.

— Eu gostaria que você me passasse o sal, por favor.

E ele continuou comendo.


E-Mail: malurcidade@hotmail.com

 

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