Desabafo
Maria Luiza Rovaris Cidade
Jantar em um restaurante meia boca em algum lugar perto do centro da cidade. Ele, um
cinqüentão lento, gordo e advogado sem grandes ambições, sentado de frente para ela,
degustando o camarão ao alho que ela tanto detesta. Ela, dona-de-casa cheia de
ambições, todas frustradas, sentada de frente para o ser que tem lhe proporcionado
intensos momentos de reflexão que cessaram ao mesmo tempo que a atenção dele se desviou
do camarão. Olham-se por uns instantes que passaram despercebidos por ele e
intermináveis para ela. Ele começa:
Querida, eu...
Não, Alberto. Eu falo primeiro.
Mas...
Nada de mas, Alberto. Já está mais do que na hora de discutirmos
nossa relação, nosso casamento. Nossos filhos já estão encaminhados na vida e está na
hora de nós finalmente tentarmos encontrar nossa felicidade. Não sou feliz. Nunca fui.
Você e seus camarões. Você e seus processos infindáveis. Você e seu cheiro de suor
que beira o insuportável. Você e seu futebol aos domingos, pela televisão, é claro,
já que você nunca se importou com sua própria saúde. Você e suas músicas clássicas.
Você e suas risadas das Vídeo Cacetadas. Cansei, Alberto. Cansei de você.
Ele, atônito, olha para ela. Ela continua:
Nunca quis me casar com você. Estudamos juntos, fomos namoradinhos nos tempos de
colegial, mas jurei pra mim mesma que isso nunca iria adiante. E foi. Minha mãe pode até
se remexer no túmulo, mas eu nunca a perdoei por isso. Por fazer minha cabeça, por me
influenciar a casar com você. Nunca gostei de seus modos, dos seus amigos e até do seu
trabalho. Você nunca quis crescer na vida, nem sei se tem capacidade para tanto.
Ele estava roxo. Ela acrescenta:
Eu te odeio. E odeio essa nossa vida, essa minha vida.
Ele, cor-de-abóbora:
Você quer divórcio?
Ela, estupefata:
Divórcio? A essas alturas dos acontecimentos? Claro que não! O que minhas amigas
iriam pensar? O que todos iriam pensar? Prefiro aceitar minha condição de esposa
frustrada em todos os sentidos. Até o sexo era péssimo. Por que você não arranjou uma
amante, hein? Seria tão mais fácil. Eu faria um escândalo básico e nos separávamos.
Mas, não. Você sempre era cem por cento correto em tudo, Sr. Sabichão. Eu te desprezo.
Ele, com olheiras, afrouxou o nó na gravata. Ela, cheia de si, pergunta:
O que você queria mesmo?
Quando?
Antes desse meu desabafo.
Eu gostaria que você me passasse o sal, por favor.
E ele continuou comendo.
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