
Valquiria Coelho Lemos (1961), é
jornalista pós-graduada em Gestão Estratégica de Negócios e Practitioner em
Programação Neurolinguística. Especialista em Comunicação e teosofia, é facilitadora
de cursos comportamentais. Teve alguns artigos e poesias publicadas em jornais locais e
ganhou, em primeiro lugar, um concurso de crônicas patrocinado pela Kodak de São José
dos Campos (SP), onde reside, justamente com esse que acima apresentamos. |
Estranho desejo
Valquiria Coelho Lemos
Rostinho sujo, cabelo embaraçado, descalço corre rua abaixo. Se esconde quando faz parte
do jogo e tem medo de ser encontrado.
Coração dispara quando outra criança grita:
Um, dois, três... te peguei!
Ninguém o chama para o banho, nem reclama da sua roupa rota e suja. Bolinha de gude rola
pelo chão sem asfalto nos dias de sol. Gosta de estar no barro nos dias de chuva.
Criança livre. Criança pobre.
No quarto pequeno, único cômodo da casa, é onde a doença chega e vai embora sem
auxilio do médico. É onde a marmita estala no fogão ao ser requentada.
Depois do filme de terror assistido na casa da vizinha a cama dura nem sente pois o sono
é pesado e acolhedor. Novo dia de inesquecíveis aventuras, o desejo de que seja longo e
que chova para não ir à escola.
Criança pobre. Criança livre.
Agora o sucesso do pai no serviço é notado e o sorriso da mãe ao dizer:
Meu filho, nós vamos subir na vida. não lhe soa bem.
Dai em diante sente os dias de chuva triste dentro da casa grande com televisão que não
deseja assistir.
Não pode brincar na rua pode se machucar.
Vá tomar banho!
Você está atrasado para ir à escola, anda logo!
Sente-se direito na mesa!
Mastigue com a boca fechada!
São as frases que freqüentemente ouve durante o dia.
Aquela dorzinha no fundo do coração se alastra por toda alma e sente que as lágrimas
estão escorrendo no rostinho limpo e corado.
O médico da família é chamado e a mãe apavorada com o choro do menino não pára de
perguntar a razão de tanta tristeza.
O médico examina mas os soluços continuam na cama macia e quente.
Tentam conversar, dão chá e nada adianta. Depois de todos os exames feitos, finalmente o
médico fala:
Não precisam se preocupar, ele está bem.
A mãe aflita, sem entender, pergunta a causa de tantas lágrimas do filho.
Responde o médico sem hesitar:
Desejo de ser pobre.
E-mail: valquiriaclemos@yahoo.com.br
Site: http://www.valquirialemos.com.br
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